segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Entro num mundo paralelo em que o dia prolonga a cinza da noite e os homens já não lutam; inclinam-se mansamente sobre as dobras do tempo e escutam-no, com o estômago frágil e o espírito de coragem das mulheres.
Não há portas para os territórios familiares da dor, não há como conter a violência dentro do ninho de uma pertença. Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem história nem mártires reconhecíveis. Porque há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo. Mesmo para quem, como eu, nunca soube escavar até ao fundo dessa gruta negra, trans-siberiana, húmida, universal, a que chamamos coração.

Inês Pedrosa

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